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Cerrado da Morraria como herança do futuro

Publicado em 8 de Outubro de 2018 às 09:42

A valorização e defesa de uma cultura ganham força quando se passa a ter conhecimento acerca da história de onde se vive e dos povos pertencentes a esse território. É por esse viés que a Associação Regional das Produtoras Extrativistas (Arpep), proponente do subprojeto A Sociobiodiversidade do Cerrado da Morraria como Herança do Futuro, apoiado pelo 1º edital do DGM Brasil, tem conduzido suas ações junto às comunidades camponesas da Morraria, no sudoeste mato-grossense.

A iniciativa prevê a recuperação e mapeamento das áreas degradadas das comunidades tradicionais da Morraria, a construção de viveiro de mudas nativas e frutíferas, bem como a troca de conhecimentos e aprendizados sobre os recursos naturais da região entre gerações.

As ações do subprojeto propõem um enfrentamento ao avanço do agronegócio, o qual tem acelerado o desmatamento do bioma Cerrado para a implantação das monoculturas de soja, teka, eucalipto e cana-de-açúcar, bem como a pecuária. “No estado do Mato Grosso, as ameaças continuam agressivas, pois o agronegócio conta com apoio de representantes políticos e grandes produtores rurais”, comentou o assessor técnico do subprojeto, Vilmon Ferreira.

Conexão acadêmica

Nesse sentido, a Arpep realizou, no dia 24 de setembro, o Dia de Campo na Morraria: Trilha de Aprendizados, em parceria com a Escola Municipal Buriti da Morraria e o Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT) - Campus de Cáceres. A atividade teve início com uma visita às áreas a serem recuperadas na comunidade tradicional Nossa Senhora da Guia, sede do Grupo de Mulheres Frutos da Terra, ligado à Arpep, e o local onde vai ser construído o viveiro de mudas e horta comunitária de ervas medicinais. O Instituto Federal esteve presente com uma caravana de 40 alunos e professores do curso de Engenharia Florestal.

Durante a trilha pela Morraria, o grupo percorreu a área de Cerrado até a serra, onde, segundo os moradores mais antigos, corriam águas nas nascentes mesmo em épocas de seca. “O Instituto Federal comprometeu-se em disponibilizar dois professores especialistas em bacias hidrográficas para colaborar com o projeto nos estudos e acompanhamento do plano de recuperação dessas áreas”, contou Vilmon.

No final da programação na comunidade de Nossa Senhora da Guia, o grupo visitou e definiu a área de construção do viveiro de mudas. Foi firmado um compromisso entre a Arpep e o Curso de Engenharia Florestal do IFMT, para que seja apresentado pelos acadêmicos o projeto da planta do viveiro e orçamento dos custos de toda obra, considerando a realidade da comunidade.

Transmissão de saberes entre gerações

Em seguida, a caravana rumou para a Escola Municipal Buriti da Morraria, onde foi acolhida por cerca de 300 alunos, professores, mães, pais e direção. Desde 2011, a instituição é parceira da Arpep, que por meio do Grupo de Mulheres Frutos da Terra, fornece pães e biscoitos de mesocarpo do coco-babaçu para alimentação escolar.

A Associação apresentou o subprojeto, destacando a importância da parceria com a escola na execução das atividades, pois estudam ali alunos que vivem nas comunidades tradicionais da Morraria. “É importante enfatizar a participação e comprometimento da comunidade escolar, que se envolveu desde o momento inicial da elaboração do projeto, facilitando a construção da proposta final”, ressaltou Vilmon.

A professora Edenilda de Araújo Correia reforçou a relevância da iniciativa para toda a região, uma vez que “a realidade está cada vez mais preocupante, pois a questão da falta d’água na Morraria virou um caso grave”.

Para a coordenadora do subprojeto e diretora da Arpep, Érica Kazue Sato Catelan, “a iniciativa vai fortalecer a continuidade dessa parceria, ao envolver estudantes, familiares e corpo escolar nas atividades em defesa e proteção do bioma Cerrado da Morraria, como oficinas e palestras”. Ainda segundo ela, “a ideia é que, com a recuperação dos recursos naturais e envolvimento dos mais novos nessas ações, o subprojeto propicie a permanência da juventude no campo”.

Defesa da cultura alimentar

Ainda no âmbito do subprojeto A Sociobiodiversidade do Cerrado da Morraria como Herança do Futuro, a Arpep realizou, no dia 09 de setembro, a 4ª Feira Agroecológica do Cerrado - Um resgate da Cultura Alimentar da Nossa Gente. O evento aconteceu na praça pública central da cidade de Cáceres e contou com a parceria da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE).

Os grupos de extrativistas do Cerrado puderam apresentar e comercializar seus produtos derivados do pequi, cumbaru e babaçu. Do pequi havia a farinha, licor, óleo, conserva e pão. Já do cumbaru, o bombom, farinha, licor, biscoitos, pão e bolachas. Do babaçu, farinha, óleo e biscoitos. Havia ainda outros artigos regionais produzidos de forma agroecológica.

“A atividade serviu como espaço de conversa entre os expositores e as expositoras com o público, visando a troca de experiência acerca da base alimentar por meio dos produtos expostos, isto considerando que muitas pessoas ainda não conheciam algum derivados como do pequi, babaçu e cumbaru”, avaliou Vilmon. “Ademais, como visibilidade do subprojeto, o evento contribuiu no sentido de divulgar a importância do Cerrado, dos produtos advindos do extrativismo local e, também, de denúncia acerca da morte do cerrado, suas águas e suas nascentes”, acrescentou.

Em suas falas, as mulheres integrantes da diretoria da Arpep mencionaram a importância da organização exclusiva de mulheres na manutenção e preservação do Cerrado, reforçaram a grandiosidade e riqueza que se pode conseguir a partir dos alimentos obtidos pelo extrativismo, visando uma saúde de qualidade para todos e todas. Além disso, denunciaram o desrespeito para com o Cerrado com as mortes das nascentes, pelos incêndios criminosos e o desmatamento pelas plantações da monocultura.

Ainda durante a atividade foi realizada pelas mulheres uma apresentação do subprojeto e apresentações culturais ligadas à defesa da cultura e do modo de vida dos povos do Cerrado, o Siriri, Rasqueado, Cururu e Dança de São Gonçalo, gêneros musicais da tradição popular mato-grossense.

Sobre a Arpep

Em julho de 2009 foi criada a Associação Regional das Produtoras Extrativistas do Pantanal (Arpep) com o objetivo de garantir a autonomia das mulheres no campo, através do manejo agroecológico da produção e geração de renda, no sudoeste de Mato Grosso. No início, contou com grupos informais de mulheres que realizavam dentro de suas comunidades/assentamentos trabalhos de promoção da agroecologia, por meio de debates e oficinas sobre a diversificação da produção e sobre a valorização da mulher.

A partir de então, os grupos começaram a se organizar em projetos demonstrativos de manejo e beneficiamento de frutos do Cerrado e constituíram uma rede de agroextrativismo na região. Até então não formalizada, situação que dificultava o processo de organização da produção das mulheres até o escoamento ao mercado, em 2009, os oito grupos informais de mulheres constituíram formalmente uma associação extrativista na região, a Arpep, que passou a desenvolver programas e mercados específicos.