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Conquistas e desafios da economia solidária no Cerrado

Publicado em 21 de Dezembro de 2017 às 14:17

De 11 a 13 de dezembro, representantes de 16 subprojetos contemplados no primeiro edital do DGM Brasil participaram do intercâmbio de experiências com agricultoras(es) familiares, assentadas(os) da reforma agrária, bem como associações focadas no beneficiamento de produtos da sociobiodiversidade do Cerrado. “Escolhemos algumas experiências de sucesso para visitarmos e dialogarmos, de forma a contribuir na reflexão e no processo particular de cada coletividade representada no intercâmbio”, pontuou Paula Vanucci, consultora especializada em gestão do conhecimento, capacitação e mobilização da equipe-chave do DGM Brasil.

A realização desse intercâmbio focou não apenas nos subprojetos que estão orientados ao mercado, mas também naqueles projetos de gestão de recursos naturais que, em certa medida, têm como meta a longo prazo o alcance do mercado. “Portanto, essa é uma atividade cujo olhar está direcionado aos processos de produção, precificação, comercialização, organização de produtos, entre outros aspectos pertinentes ao tema”, acrescentou Paula.

No primeiro dia, os subprojetos conheceram o trabalho da Central do Cerrado (Brasília - DF), estabelecida por 35 organizações comunitárias - dos estados do MA, TO, PA, MG, MS, MT e GO - que desenvolvem atividades produtivas a partir do uso sustentável da sociobiodiversidade do Cerrado. O secretário executivo da Central, Luis Carrazza, explicou o trabalho desenvolvido, o qual possibilita a ligação entre produtores comunitários e consumidores, ofertando também produtos para restaurantes, empórios e pequenos mercados, além de coquetéis e lanches para eventos.

“Muitas pessoas compram os nossos produtos na nossa loja do Mercado Municipal de Pinheiros (São Paulo), pois acham interessante a proposta da Central do Cerrado, porém, em geral não sabem o que fazer com esses ingredientes, tais quais as farinhas de jatobá e babaçu, que têm alto valor nutricional”, observou Luis Carrazza. “Assim percebemos que é preciso desenvolver estratégias de divulgação e aplicação prática desses produtos”, completou.

A jovem Márlen Maria Moreira, moradora do Quilombo da Pontinha (município de Paraopeba - MG) e representante do Instituto Sustentar, comentou que muitos frequentadores das feiras das quais participa sempre perguntavam se o creme de pequi era para ser usado como creme para pele ou cabelo. “Para não deixar dúvidas e ainda promover o nosso produto, começamos a fazer degustações nos eventos e a sugerir receitas nos rótulos”, revelou.

Outra estratégia importante, a fim de divulgar os benefícios nutricionais dos frutos do Cerrado e as vantagens em adquirir produtos da economia solidária, foi indicada por Cláudia Calório, consultora especializada em gestão socioambiental e gestão de projetos da equipe-chave do DGM Brasil: “É interessante conversar com as nutricionistas das prefeituras, pois são elas as responsáveis pelos cardápios das escolas e auxiliares nos processos de licitação”.

Ainda no dia 11, no período da tarde, o grupo visitou o espaço de produção da Coopafama, uma das organizações associadas à Central do Cerrado, localizada no Assentamento Colônia I, município de Padre Bernardo (GO). A Coopafama trabalha com agricultura orgânica, artesanato e a produção das iguarias oferecidas nos coquetéis ecossociais da Central do Cerrado, tais quais geleias, doces, bolos e quitutes feitos com produtos da sociobiodiversidade do Cerrado. 

É formada pelo Grupo Vida e Preservação (de homens) e Grupo Sabor do Cerrado (de mulheres). Os subprojetos foram recebidos por Rosicler Velloso e João Batista - representantes dos grupos, respectivamente - que apresentaram o processo produtivo, o trabalho coletivo no assentamento, os principais desafios e a relação com a cooperativa.

“Como oferecemos opções exóticas para a população em geral, fomos incorporando esses ingredientes, como as farinhas de jatobá e babaçu, aos bolos, pães e biscoitos servidos nos coquetéis, sendo essa uma forma de divulgação dos produtos”, comentou Rosicler Velloso. “O retorno foi bastante positivo, hoje nossos biscoitos de jatobá e babaçu são um sucesso e uma marca registrada nossa”, acrescentou.

Segundo dia

Na terça-feira (12 de dezembro) foi a vez de conhecer o trabalho realizado pela Copabase, em Arinos – MG, no Vale do Rio Urucuia. A gestora Dionete Figueiredo e a engenheira agrônoma Adriana Oliveira apresentaram a cooperativa, que se dedica a agricultura familiar e economia solidária, abrangendo os municípios de Bonfinópolis de Minas, Buritis, Formoso, Pintópolis, Riachinho, Urucuia e Uruana de Minas.

“Com o tempo fomos percebendo que não é possível abraçar tudo, trabalhar com muitos produtos ao mesmo tempo, pois cada um demanda muito esforço e detalhes, como registro, código de barras, embalagem, rótulo. Também optamos por não trabalhar com produtos in natura, pois para nós não se mostrou uma alternativa viável”, expôs Dionete. “Aos poucos fomos ganhando experiência e adequando as ações à realidade da cooperativa”, adicionou.

Para ver o trabalho que é realizado ‘na ponta’, no período da tarde, o grupo seguiu para o assentamento Carlos Lamarca, em Uruana de Minas. Lá visitaram o quintal produtivo da Dona Cleide, de onde sai, principalmente, acerola para produção de polpa de suco e castanha de baru comercializadas pela Copabase, e se encantaram com o artesanato em linha tingida com substâncias naturais, o qual faz parte da cartela de produtos da associação Central Veredas.

“Quando cheguei aqui com meu companheiro, há 17 anos, era só pasto. Plantamos todas essas árvores que vocês podem ver”, apontou Cleide. “Antes da chegada da Copabase, a castanha de baru era valorizada só pelo gado, as frutas que não conseguíamos vender, perdiam. Hoje são fonte de renda para muitas famílias como a minha”, acrescentou.

Terceiro dia

No último dia do intercâmbio (13 de dezembro), os representantes dos subprojetos conheceram o artesanato da Central Veredas, associação vinculada à Copabase, referência em bordado e tecelagem com algodão tingidos com entrecascas de árvores e outros recursos da natureza, pelas integrantes do grupo. Com a participação solidária de artesãs e artesãos, a Central Veredas constitui parcerias para consolidar sua estrutura e fortalecer os nove núcleos de abrangência, garantindo-lhes acesso ao mercado, qualificação, aplicação de preços justos, divulgação dos produtos artesanais, frutos do trabalho de aproximadamente 80 artesãs(aos). Todos os produtos são confeccionados de forma ecologicamente correta, explorando riquezas e recursos naturais e culturais da região do noroeste de Minas Gerais, conhecida como Urucuia Grande Sertão Veredas.

Após a visita foi realizada uma avaliação do intercâmbio com os subprojetos participantes. “A gente vê que, independentemente dos anos que cada projeto tem e da posição dos atores na cadeia de produção (rede/cooperativa/agricultora e agricultor familiar), os desafios e os momentos de sucesso são constantes e similares”, observou Aline Cristina Ferragutti, representante da Rede de Sementes do Xingu. “Dessa forma percebemos a importância do trabalho de base, de maneira a compartilhar essas experiências e assim vencer juntos as dificuldades”, completou.

Ana Emilia Milhomem Lindoso, da Associação Comunitária da Aldeia El Betel, que assessora a Terra Indígena Canabrava – MA, avaliou o intercâmbio como uma ‘injeção de ânimo’. “A autossuficiência dos indígenas com os quais trabalhamos está ameaçada. Antes eles eram resguardados pela Funai, que hoje está desmantelada. O território está sendo gradualmente destruído pela exploração madeireira, pela exploração da fauna e flora em geral. Ao mesmo tempo, os indígenas que acabam se vendo forçados a ir para as cidades estão sofrendo um processo de marginalização muito forte”, relatou. “A partir da experiência que tive aqui nesses dias e com auxílio dos materiais em vídeo e documentos expostos, quero mostrar para eles que é possível continuar dentro da T.I. sem precisar ir pra cidade. Acho que isso vai dar um fôlego a mais pra eles”, concluiu.